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Step 1 - Setting and characters
A porta aberta e o cão
Portugal
Portuguese
Numa manhã quente de final de verão, Jorge Bernardes e Felismino Vilela aproximam-se saudosamente do abandonado edifício fabril na pequena vila de Alcães, onde haviam trabalhado 47 anos. No bolso levavam um naco de pão e uma fatia de chouriça para acalmar ditosas saudades. Pelo caminho, recordavam, com a voz trémula, os momentos divertidos que tinham partilhado enquanto trabalhadores da fábrica Alcanina, outrora distinguida como a melhor manufatura de alimento racional para cães. Por isso, não estranharam quando viram um cão deambulando, perdido e faminto, pela fábrica.
- Às tantas, anda à procura de uma latita perdida de comida - comenta o Felismino.
- Olha, magrinho como está, não deve ter encontrado nada... - responde o Jorge.
Entretanto, o Felismino repara em algo familiar na coleira, um osso de prata com o nome do canídeo - Babalou.
- Atão, mas este não é o cão da patroa? pergunta o Jorge. O que andará por aqui a fazer?
Os dois colegas e amigos entreolham-se e reparam numa porta entreaberta de onde jorrava um feixe de luz ténue azulada. Ai senhora do Carmo... mas o que será aquilo?
Step 2 - Crime scene
Os dois entraram no pavilhão em direção à suspeita porta, contornando as carcaças estáticas e esquálidas das outrora produtivas máquinas que davam vida e som àquele espaço. Que desolação!! Mas essa desolação ainda foi maior mal abriram a porta e se depararam com a Senhora Dona Carminho esparramada no chão e algo descomposta. Mal eles abriram a porta, Babalou aproximou-se, inquieto e começou a lamber as mãos, as orelhas, os joelhos e até o cabelo da dona.
- Queres ver, a gaja bateu a bota!... - comentou o Felismino
O Jorge baixou-se e tentou sentir o pulso e verificar a respiração da patroa. Estaria morta? Estava mesmo.
- Que diabos... o que se terá passado aqui? Eh pá, temos de chamar alguém que ainda cai a culpa a um gajo.
Felismino que era olho vivo, desde bem jovem, começou a olhar em volta e reparou em três coisas muito estranhas: ela não tinha telemóvel, segurava um pedacinho de papel entre dois dedos e tinha um enorme rasgão nas calças. Em cima da secretária estavam também dois copos de vinho, meio cheios, dando a impressão que alguém ali tinha estado a beber com ela.
- Chamamos a Natália? - sugere o Jorge.
- Quem? A mulher polícia ou a presidente da Junta? - retorque o Felismino.
- Olha, chama as duas, não vá o diabo tecê-las que a julgar por isto que aqui vai, aqui há gato!..
- Atão, mas era um cão??
- Cala-te e liga mas é!! - insiste o Felismino.
Step 3 - The detective
Enquanto esperavam pela chegada das Natálias, Jorge e Felismino decidiram alimentar o Babalou com o pão e a chouriça que levavam na algibeira. Eram dois homens com o coração grande e muito amigos dos animais. Embora parecessem ignorar o corpo estendido no chão, continuavam a observar atentamente o local e alvitravam hipóteses:
- Vais ver que foi o outro que lhe deu uma traulitada? - diz o Jorge.
- Mas que outro? O Jaquim da taberna? Aquele com quem ela... já sabes...ia ao estrangeiro ver os modelos das latas da comida para cães? - riposta o Felismino
- Achas que ela se contentava com o Jaquim? Nada disso. Era com o Manel, o dono da fábrica da ração. Pensas que ela arranjou o Mercedes aonde?
- Mas estava aqui um Mercedes? - perguntou a Natália, presidente da Junta que acabara de chegar no carro patrulha com a sua homónima.
Natália Alarcão era uma mulher destemida, decidida e desempoeirada, habituada a lidar com todo o tipo de situações, desde terramotos, a fogos na cozinha, até desacatos entre maridos e mulheres. Arguta, inteligente e bem falante, tinha muita facilidade em avaliar situações num relance. Já a outra Natália, a agente da autoridade que a acompanhava, era uma mulher calada e discreta, de cabelo já grisalho, vincados papos sobre os olhos e com a pele visivelmente gasta pelo tempo.
No entanto, a esta agente não escapa nenhum pormenor.
Step 4 - The suspects
A agente Natália, com a sua habitual eficiência, puxa de um kit de impressões digitais (cenas à CSI) e analisa a porta, os copos e a secretária. Entretanto, o Jorge e o Felismino continuavam a lançar palpites sob o olhar atento da presidente Natália:
- Não concorda, presidente, que isto é coisa de rivalidade entre amantes? Na direção da agente Natália, nem se atreviam a olhar, porque já sabiam que ela não lhes daria ouvidos. Pelo canto do olho, os dois espiavam tudo o que ela fazia e quase não conseguiam conter a curiosidade de saber as conclusões a que já teria chegado. Natália Alarcão, a presidente, dirigiu-se à agente diretamente e perguntou:
- Há pistas concludentes? Alguma conclusão que possamos já tirar? Cá para mim, é um mistério como é que esta mulher veio parar aqui à fábrica. Foi morta aqui ou trouxeram-na? Laconicamente, a agente Natália, informa os presentes que parece haver indícios de que a vítima foi agredida no local. Com ar misterioso, dirigiu-se ao corpo e, cuidadosamente, segurando uma pinça na ponta dos dedos, retirou o pedaço de papel que permanecia entre os dedos do cadáver. Os outros três aproximaram-se, inquiridores, tentando decifrar as marcas manuscritas, numa tinta azul elétrica.
Os quatro, em conjunto, descortinaram duas letras, claramente: "AO". Seria esta uma pista importante? Seria um recado? Seria uma assinatura num documento? Ou uma nota de encomenda? Talvez um novo contrato... Estaria neste papel a causa desta desgraça?
Step 5 - Examine the Crime Scene
Discretamente, enquanto Felismino, Jorge e a presidente da Junta, Natália Alarcão, congeminavam possíveis respostas para o macabro desenvolvimento, que fora a morte da Dona Carminho, a eficiente agente da autoridade enviava as pistas recolhidas para o centro de análise forense e informava-se ao telefone sobre os familiares próximos da vítima. Fotografou o pedacinho de papel com o telemóvel e aguardou, pacientemente, por uma resposta de análise grafológica.
Enquanto aguardava pelas respostas que lhe haviam de dar a solução do mistério, a agente Natália murmurava com o Babalou:
- Vieste com a dona? Viste o que se passou? Queres levar-me a algum lado? Por que estás tão magrinho? Será que foste abandonado aqui? - estas e outras perguntas pairavam no ar, quando surge o toque do telemóvel. Todos pararam de falar para se concentrarem nos monossílabos da agente ao telefone.
- Então, já sabe alguma coisa? Já há novidades? - pergunta Felismino.
Natália fitou os presentes e numa voz calma anunciou:
- Não era difícil resolver este caso. As provas acabam de mo confirmar.
Step 6 - Mystery Resolution
Natália reuniu os presentes no exterior do edifício.
- É fácil de apurar que a morte da vítima foi causada por um embate da têmpora direita que pode ter sido causada por alguém ou acidentalmente. Notem que a vítima apresenta uma pequena nódoa negra na têmpora direita. Os dois copos de vinho indiciam um qualquer tipo de celebração, o que vem a ser corroborado pelo fragmento de papel encontrado entre os dedos da vítima. Parece tratar-se de um acordo ou contrato com duas assinaturas, das quais apenas descortinamos o final de uma delas "ao" ou "ão". Não lhe parece, Drª Natália Alarcão?
A presidente da Junta, atónita e visivelmente incomodada, a transpirar, indigna-se:
- Por que razão me dirige essa pergunta? Sou Natália, mas não sou polícia.
- Mas é verdade ou não que era uma amiga íntima da vítima? E que este edifício e a possibilidade de o reativar constituía uma mais-valia para o seu mandato? E que andava já, há vários meses, em negociações com a vítima para o vender a um consórcio alemão? Conte-nos então: o que é que correu mal?
- Eu não a quis matar... viemos até aqui para firmar e celebrar um contrato de venda da fábrica ao grupo "Liechstein", mas a Carminho arrependeu-se. Depois de assinar arrependeu-se. E quis voltar atrás... e eu... e eu... e eu... não... não podia deixar que isso acontecesse. Então puxei-lhe o papel da mão e foi aí que ela caiu para trás e o acidente aconteceu... Eu não queria acreditar que ela estava morta...
- Não percebo este cão!! De que adianta ter um cão de guarda se ele nem a dona guarda? - reage o Felismino.
E aí, a agente Natália, clarifica:
- Há muito que tínhamos recebido denúncias de maus-tratos ao cão pela Dona Carminho. Não me admira que ele não tenha reagido à sua morte.
E assim se fechou a porta sobre o cão.
Step 7 - The story trailer
Quando uma porta se entreabre e surge um cão, faminto, com adereço de prata, e dois compadres se espantam, adensa-se o mistério na vila da Alcães. São precisas duas Natálias e dois curiosos para decifrar as pistas e solucionar o caso da morte da dona do cão.
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